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Recentemente, o Prof. Marcos Nunes Costa, Doutor em Filosofia e atual Coordenador do Curso de Filosofia da UFPE, sempre preocupado em resgatar e promover nossa cultura popular, desenvolveu um trabalho de pesquisa acerca do “vocabulário sertanejo”, dito “matuto”, o qual foi publicado e lançado em Itapetim durante as Festas Juninas de 2011.
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Neste trabalho, o Dr. Marcos mostra que, mais do que uma forma de comunicação, que é seu principal objetivo e que funciona muito bem, uma vez que os matutos se entendem tão bem quanto os que se comunicam com a “linguagem formal”, esse extenso vocabulário traz ou reflete em si uma visão de mundo; um conjunto de valores que denominamos de “cultura sertaneja”, que por sua vez fazem do sertanejo um sujeito singular: espirituoso, humorístico, poeta, etc.
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E à medida que vamos lendo o Dicionário do Prof. Marcos ficamos cada vez mais encantados com a riqueza de sentidos que as palavras transmitem, com a criatividade do sertanejo, que usa e abusa do seu meio (principalmente da natureza) para formular suas expressões, analogias e ditados. Ou seja, a exemplo da linguagem mitológica, que é uma forma de expressar sentimentos, valores, conceitos, etc. através de fatos, o sertanejo usa a natureza como recurso analógico para se expressar. Daí a grande quantidade de palavras, expressões e/ou ditados aqui apresentados, como, por exemplo: “cabrita”, para designar uma moça nova; “fêi [feio] que só um caboré”, para se referir a alguém muito feio; “mais animado do que pinto em bêra [beira] de ceica [cerca]”, para definir uma pessoa muito alegre, etc.
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Outra característica marcante do sertanejo matuto é a capacidade que tem de adaptar a linguagem à sua condição de homem simples, humilde, iletrado, quando da sinterização de palavras, facilitando a sua pronúncia, que se dá seja pela simples supressão de letras e/ou sílabas, como, por exemplo: “cadêra [cadeira]”, “rinchar [relinchar]”, etc., seja pela simplificação de sílabas, como é o caso daquelas palavras que trazem consoantes dobradas as quais são substituídas por uma única vogal, como, por exemplo: trabaiar [trabalhar], “fi [filho]”, “bascui [basculho]”, “padim [padrinho]”, etc. Ou da contração de duas ou mais palavras numa só, que dá maior agilidade no falar, como, por exemplo: “lastá [lá está]”, “purisso [por isso]”!, “quale? [qual é?]”, “vambora [vamos embora]”, etc.
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É certo que em alguns casos dá-se um efeito contrário, quando do acréscimo de letras e/ou sílabas em uma palavra, gerando muitas vezes uma nova palavra, a que chamamos de corruptela, como, por exemplo: “ababosa [babosa]”, “azavessar [avessar]”, “arrente [ a gente]”, etc .
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Em alguns casos, vemos certa dificuldade em pronunciar certas letras, as quais são substituídas por outras, como é o caso do “b” no início de palavras: ““baje [vargem]”, “barrer [varrer]”, “berruga [verruga]”; do “l” no meio de palavras: “vurto [vulto]”, “cardo [caldo]”, “goipe [golpe]”, etc. ou do “r”: “coipo [corpo]”, “gaiganta [garganta]”, etc.
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E como fruto dessas variações, seja por supressão, acréscimo ou simplificação de pronúncia, de vez em quando encontramos certas palavras (corruptelas) que são totalmente diferentes da matriz original, como, por exemplo: “briba [víbora]”, “cosca [cócega]”, fosco [fósforo]”, “xexo [seixo]”etc. Sem contar o grande número de utensílios domésticos e/ou do trabalho, comidas, situações e ações próprias do mundo sertanejo, geradoras de palavras e/ou expressões peculiares, só vista no “vocabulário matuto”, como, por exemplo: “atajé”, “batata ou cafofa-de-imbu [umbu]”, “bêra [beira] seca”, “chêi [cheio] de cavilação”, “légua de beiço”, etc.
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Além disso, percebemos que muitas palavras são originalmente matutas, que não se encontram nos dicionários da língua formal ou oficial, que não temos a menor ideia do que venham a ser, embora entendamos quando colocadas num contexto, como é o caso de “bicina”, que aparece na expressão “tá [está] cum [com] a bicina”, indicando uma coisa ruim, mas que não sabemos o que é.
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Por fim, reiteramos, o maior objetivo do Dicionário de Matutês do Dr. Marcos é registrar, enquanto é tempo, o rico acervo de palavras e/ou expressões matutas, visto que, nas últimas décadas, estamos assistindo a uma crescente e rápida transformação sociocultural em nossa sociedade, influenciada, principalmente, pelo desenvolvimento industrial, que torna acessíveis seus produtos a todas as camadas sociais e a todos os recôncavos do País (inclusive nos Sertões), especialmente dos aparelhos de veiculação dos meios de comunicação de massas, nomeadamente a televisão. E tais transformações têm provocado mudanças tão repentinas que os mais jovens chegam a desconhecer, quase por completo, as suas origens históricas, as formas de vida e manifestações culturais de seus pais e avós, as quais não lhes servem mais como referencial de vida. Antes, pelo contrário, são rechaçadas como retrógradas e antiquadas. A alienação promovida pela sociedade consumista gera uma espécie de amnésia cultural nos jovens, obcecados pelo novo, pelo momentâneo, pela “cultura do enlatado”, vendida por setores da Mídia descomprometida com a cultura histórica.
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Com o objetivo de levar seu trabalho a um número cada vez maior de leitores, o Dr. Marcos disponibilizou seu Dicionário, que ora colocamos a disposição de todos.
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Click abaixo na letra que deseja do Dicionário
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